A Justiça determinou 60 dias para a desocupação de parte da área. Entre os afetados, o Cruz da Esperança, com mais de 15 mil frequentadores por mês e uma das rodas de samba mais queridas da região.
Quem frequenta a Zona Norte já sabe que o Aeroporto Campo de Marte é muito mais do que uma pista de pouso. Desde os anos 1960, a área abriga clubes de futebol de várzea, rodas de samba e uma vida comunitária que resistiu a décadas de indefinição sobre o futuro do terreno. Mas agora, a situação chegou a um ponto de virada.
No final de março de 2026, a Justiça determinou um prazo de 60 dias para a desocupação de parte da área, dando início à fase concreta da construção do Parque Campo de Marte. A iniciativa privada administrará o novo complexo de lazer por 35 anos, e o espaço deve atender cerca de 300 mil pessoas.
O acordo entre a Prefeitura de São Paulo e o governo federal envolveu a troca de uma dívida de 25 bilhões de reais da cidade. A União ficou com 81% da área total; os 19% restantes (406 mil metros quadrados) serão destinados ao parque.
Entretanto, no meio dessa disputa está o Cruz da Esperança, localizado na Rua Marambaia, 802. O clube foi fundado em 1958 por taxistas negros da região, inspirados pela primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil. Décadas depois, o clube se tornou referência na Casa Verde com uma das rodas de samba mais populares da Zona Norte. São mais de 15 mil pessoas por mês entre as noites de samba e os campeonatos de várzea aos sábados. A prefeitura afirma que o clube decidiu não participar das negociações após receber a informação de que o futuro parque não permitirá atividades comerciais. O Cruz, por sua vez, segue resistindo.
Mas há receio de quem frequenta o espaço: o clube vizinho Aliança da Casa Verde passou por reintegração de posse em março e hoje é um terreno de escombros. Para a comunidade do Cruz, aquele desfecho funciona como um aviso. Enquanto o prazo corre, as rodas de samba estão mais cheias do que nunca, e um abaixo-assinado online pela preservação da sede já ultrapassou 25 mil assinaturas.
O novo parque promete pistas de corrida e skate, área multiuso e manutenção do futebol de várzea, com campos construídos do zero e sedes reformadas para os quatro clubes que aceitaram o acordo. Mas o que vai acontecer com o Cruz da Esperança, e com a cultura que ele representa, ainda é a grande pergunta em aberto para a Zona Norte.

Saiba mais em: https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/campo-marte-samba-do-cruz-esperanca/

